07 abr Elementor #535
Teste
UNIDADE E COMPLEXIDADE
NAS CIÊNCIAS DA VIDA
Rolando Toro
O progresso científico exigiu uma radical reformulação dos princípios e pa-radigmas clássicos da ciência.
O ideal da certeza e precisão deu lugar ao Princípio da Incerteza. (Heisen-berg, 1958).
Teve início uma nova compreensão sobre os limítes do conhecimento. Heinz von Foerster propõe transformar uma epistemologia do “sistema observado” em uma epistemologia do “sistema ob-servador”. Nosso cérebro forma parte do conhecimento do objeto observado.
Por outro lado, a visão fragmentada de órgãos e subsistemas é substituída pela abordagem sistêmica e pelo estudo de relações de totalidade. Somos um ho-lograma vivo.
Foi necessária a compreensão da multi-dimensionalidade dos seres vivos e da complexidade das estruturas que o in-tegram.
Os avanços sobre inteligência artifi-cial fizeram pensar na semelhança entre sistema artificial e sistema vivo. Henry Atlan estabeleceu a diferença entre am-bos. O “sistema artificial” pressupõe o conhecimento total do fenômeno obser-vado. O “sistema vivo”, devido à sua complexidade natural, pressupõe uma ignorância por parte do observador.
Duas metáforas fundamentais, apa-rentemente em oposição, surgem na ba-se desta nova visão científica: J. von Neumann propõe que “os seres vivos são sistemas heterônomos, determinados de fora (input-output) e possuem uma lógi-ca de correspondência” (o mundo tem equivalentes internos). O ambiente, por-tanto, seria a condição determinante no funcionamento do ser vivo.
O ponto de vista oposto, apresenta-do por Norbert Wiener, fundador da Ci-bernética, sustenta que os seres vivos são sistemas autônomos que funcionam a partir do seu interior com uma proprie-dade de fechamento operacional e uma “lógica de coerência” baseada em uma variação aleatória dos sistemas de cone-xão interna. A relação com o ambiente seria essencialmente seletiva.
A surpresa mais interessante dentro das ciências da vida foi a Teoria do Caos. Com base nesta teoria, Ilya Prigogine, Prêmio Nobel de Química em 1977, pro-põe o caráter construtivo do não-equilíbrio. Para Prigogine, longe do equi-líbrio criam-se estados coerentes e estru-turas complexas que só podem ocorrer em um tempo irreversível. A vida não se gera no equilíbrio, mas longe dele. A ins-tabilidade do sistema permite passar de uma estrutura a outra, tornando possível a evolução qualitativa.
Humberto Maturana destacou a au-topoiesis como a característica essencial dos seres vivos. É a capacidade de criar-se, gerar-se a si mesmo.
Francisco Varela centrou sua aten-ção no processo de auto-organização e na tendência natural dos seres vivos à autonomia. Varela é, na atualidade, o mais importante epistemólogo da Biolo-gia.
Edgar Morin estende o conceito de “complexidade” dos seres humanos à vi-da social, ao diálogo e aos processos culturais e ecológicos.
Os seres humanos, porém, não pos-suem somente a capacidade de auto-organização e de auto-regulação (corre-lação intra-orgânica e conectividade).
A abordagem da Biodança conside-ra que os seres humanos possuem a ca-pacidade de auto-evolução, isto é, a pos-sibilidade real de auto-induzir estados de expansão de consciência e ascender a formas superiores de evolução.
Esta capacidade leva o indivíduo a reforçar sua identidade, emancipar-se das figuras hostís, transformar as ten-dências destrutivas em criatividade, ex-ternalizar os objetos libidinosos e buscar as fontes de prazer, revalorizar-se como criatura sagrada e, em suma, ascender na escala evolutiva.
Através deste panorama incomple-to, compreendemos que o homem é um enigma. Sua complexidade é sua quali-dade.
O acesso à gnosis (conhe-cimento) é, por definição, uma capacidade do Ini-ciado. O facilitador de Biodança deve ser, ao mesmo tempo, um místico da unida-de e um poeta da complexidade.
(II Congresso Internacional de Biodança, Fortaleza, CE, agosto/92)
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